"Acordei muito bem disposto. Lavei-me, penteei-me, vesti uma roupa nova e calcei uns sapatos bem engraxados. Depois olhei para o espelho e vi, mesmo à minha frente um rapaz muito jeitoso.
-estás muito bem arranjado-disse-lhe eu- Onde vais? Posso ir contigo?
Ele não respondeu.
Pouco depois, porém, abriu-se a porta que havia naquele outro quarto que estava para lá do espelho e eu vi, com grande espanto, entrar ali a Susana.
-Gosto muito de ti- disse-lhe o tal rapaz.
-Eu também gosto de ti- respondeu a Susana.
Olhei por mim abaixo e reparei que estava igualzinho ao rapaz do espelho. Compreendi então que ele era eu.
Nesse instante abriu-se a porta do meu quarto. Era a Susana e vinha a sorrir. Eu não pensei duas vezes, disse-lhe logo:
-Gosto tanto de ti!
Ela, sorrindo cada vez mais:
-Também gosto muito de ti.
Demos as mãos e saímos. Antes de sair olhei para o espelho e então lembrei-me do que o meu pai dissera quando o pôs lá: "há espelhos que nos mostram o que se passa no coração".
Álvaro Magalhães. O homem que não queria sonhar e outras histórias, Edições ASA, 2008

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